O ur-fascismo bate à porta, saiba identificar

O fascismo eterno, de Umberto Eco, é a leitura curta mais útil que você terá para os próximos anos. A conferência realizada em 26 de abril de 1995 para um público americano, na Universidade de Columbia, e transcrita para uma edição linda da Record, é esclarecedora e contemporaneamente assustadora.

Eco lista catorze características do Ur-fascismo, o fascismo eterno, como método para classificar o ideário em qualquer época, em qualquer cenário. É aquele tipo de texto que você não gostaria, exatamente, de ter uma aplicação prática, mas leia e você verá que tem.

Para não tirar totalmente sua diversão, resumo as características a seguir, mas recomendo energicamente a leitura completa, não se leva mais do que uma hora para ter uma imagem mais clara do seu redor:

  1. culto à tradição:não pode existir avanço do saber“;
  2. recusa da modernidade: o iluminismo e a idade da razão são depravações dos tempos modernos;
  3. a ação se justifica pela ação:pensar é uma forma de castração […] a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas“.
  4. desacordo é traição: a percepção de que o desacordo é um instrumento de avanço do conhecimento é um pecado da mordernidade;
  5. o fascismo é racista: desacordo é sinal de diversidade e o ideário busca o consenso;
  6. apelo a classes médias frustradas: são a máquina que move o ideário;
  7. nacionalismo: fornece uma identidade para os desprovidos de identidade. É a fonte da obsessão por conspirações;
  8. meus inimigos são mais fortes: mas ao mesmo tempo devem ser fracos e passíveis de derrotada;
  9. pacifismo é conluio com o inimigo: “vida para a luta“;
  10. elitismo de massa: o povo é uma elite que, no entanto, deve ser desprezada e dominada por uma hierarquia;
  11. culto ao heroismo: uma decorrência lógica do culto da morte;
  12. sexo subjugado à vontade de poder: o ur-fascismo é machista. O culto às armas é um elemento do jogo sexual;
  13. populismo qualitativo: o povo é uma ficção teatral;
  14. o idioma oficial é “novilíngua” de Orwell: estruturado com um vocabulário pobre e uma sintaxe elementar para impedir o raciocínio complexo.

Boa leitura! E não se deprima.

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